Resposta rápida

O som de rádio não sai do microfone: sai de uma cadeia de quatro elos — acervo, microfone, processamento e encoder — e o elo mais fraco define o resultado. Antes de comprar um processador, confira duas coisas: se as suas músicas estão em qualidade alta (no MP3, o padrão vai até 320 kbit/s, e converter um arquivo ruim para 320 não recupera nada) e se você já está usando o compressor e o equalizador que o seu encoder ou a sua mesa virtual têm de graça.

A cena se repete: o dono da web rádio junta dinheiro, compra um microfone bom, liga tudo — e o som continua parecendo amador ao lado da FM da cidade. A conclusão quase automática é que falta comprar um processador de áudio. Pode ser. Mas na maior parte dos casos que chegam até a gente, o processador não é o primeiro problema da fila — e às vezes ele já está instalado no computador do estúdio, desligado.

Este artigo nasceu de uma entrevista que gravei em janeiro de 2015, no estúdio da Rádio 94 FM de Divinópolis (MG), com o locutor Daniel Fernandes. A pauta era dicas para quem está começando em web rádio, e ele resumiu numa frase o que este texto inteiro desenvolve: “não adianta você ter um bom equipamento se você tem músicas [com] qualidade ruim”.

O sintoma, do jeito que o dono da rádio fala

Antes de escolher ferramenta, vale nomear o que você está ouvindo. Cada queixa aponta para um elo diferente da cadeia:

Do sintoma ao elo que costuma causá-lo.
O que você ouveOnde costuma estar a causa
Música “abafada”, sem brilho, mesmo com o microfone desligadoAcervo — arquivos de origem em qualidade baixa
Voz “seca”, “de telefone”, sem corpoProcessamento do microfone — falta equalização e compressão na voz
A música entra mais alta que a locução; o ouvinte mexe no volumeProcessamento da mistura — falta compressão no sinal final
O volume sobe e desce entre uma faixa e outraAcervo sem nivelamento + falta de compressor no master
Estouros e distorção nos picos da locuçãoFalta de limitador (ou ganho de entrada alto demais)
Chiado do cooler e ruído de sala quando ninguém falaFalta de gate — e, se for eco, é a acústica da sala
Som “quebrando” só para alguns ouvintesEncoder/banda — taxa de saída ou conexão, não processamento

Repare que só a última linha se resolve comprando mais banda, e nenhuma se resolve comprando outro microfone.

A cadeia de áudio da web rádio, na ordem em que o som passa

O som percorre sempre o mesmo caminho:

Diagrama da cadeia de áudio de uma web rádio: acervo e microfone, mesa, processamento, encoder, servidor de streaming e ouvinte, em sequência 1. Acervo + microfone o teto da qualidade 2. Mesa física ou virtual 3. Processamento voz e mistura final 4. Encoder define o teto de saída 5. Servidor entrega e banda 6. Ouvinte o que ele julga Cada elo só pode piorar o que recebe. Nenhum elo depois conserta o que veio estragado antes — por isso a ordem de conferência é 1, 3 e só então 4.
A cadeia de áudio de uma web rádio na ordem em que o som passa. Os dois elos em destaque são os que o dono da rádio costuma pular: o acervo e o processamento.

E há uma regra de ouro que explica quase todo diagnóstico errado: cada elo só pode piorar o que recebe; nenhum elo depois conserta o que veio estragado antes. É por isso que aumentar o bitrate da transmissão não melhora uma música ruim, e é por isso que um microfone excelente sem tratamento continua soando cru. Na entrevista, o Daniel usou uma imagem melhor que qualquer diagrama para o microfone sem processador de voz: “é a mesma coisa de você [...] ter uma Ferrari e andar a 40 km/h”.

Se você quer ver essa cadeia montada com nomes reais de programa, o tutorial de integração entre ZaraRadio, Voicemeeter e SimpleCast mostra exatamente onde cada peça entra — automação tocando o acervo, mesa virtual misturando com o microfone, encoder mandando para o servidor.

Elo 1 — o acervo: o bitrate da saída não conserta a entrada

Este é o ponto que quase ninguém escreve, e é o primeiro da lista por um motivo simples: é o elo que você não consegue consertar depois.

  • O MP3 tem teto. Pelo padrão, decodificadores de MP3 só precisam dar conta de fluxos de até 320 kbit/s — é a taxa mais alta de uso corrente do formato (Wikipédia, MP3). Acima disso não há para onde ir dentro do formato.
  • Converter para cima não devolve nada. Transformar um MP3 de 128 kbps em um de 320 kbps não recria a informação descartada. Ao contrário: como os artefatos de compressão são cumulativos, cada nova geração perde mais qualidade (Wikipédia, Transcoding). O arquivo engorda e o som fica igual ou pior.
  • Na prática: transmitir a 320 kbps um acervo gravado a 128 é pagar banda de 320 para entregar som de 128. Você aumenta o custo do stream sem melhorar a experiência de ninguém.

Como conferir o que você já tem: no Windows, clique com o botão direito no arquivo, abra Propriedades → Detalhes e veja a taxa de bits; no gerenciador de arquivos, dá para exibir essa coluna e ordenar a pasta inteira por ela. Vale fazer uma amostragem honesta da playlist antes de culpar o equipamento — arquivo baixado de fonte duvidosa costuma estar bem abaixo do que o nome sugere.

Já que você vai mexer no acervo, aproveite para resolver o volume irregular entre faixas no mesmo passo. A rotina de subir arquivos já nivelados está em playlist no AutoDJ do CentovaCast — é mais barato normalizar antes do upload do que tentar compensar tudo no compressor depois.

Em 2015, o locutor entrevistado recomendava não trabalhar “com nada abaixo de 320” no MP3. O teto de 320 kbit/s é fato do formato; o piso de 320 é a régua dele, não uma norma técnica.

Processador de áudio para web rádio: o que ele faz de fato

Sem jargão, são quatro funções:

  • Compressor — aproxima o que é baixo do que é alto, deixando o volume constante.
  • Equalizador — tira o “de telefone” da voz e o grave embolado da mistura.
  • Limitador — impede que os picos estourem.
  • Gate — corta o ruído de fundo quando ninguém está falando.

E são duas camadas, com funções diferentes: o processamento da voz, entre o microfone e a mistura, e o processamento da mistura final, antes do encoder. Não é preciosismo — é o que o manual do BUTT recomenda para quem transmite fala e música no mesmo ar: comprimir a mistura “como se fosse música” e ter um compressor adicional entre os microfones e a mistura final.

Dois limites que evitam frustração: processamento não conserta acústica. Gate e compressor tiram ruído constante e domam picos, mas o eco de uma sala vazia se resolve com tratamento do ambiente, não com plugin. E arquivo gravado é outro assunto: quando o problema está num áudio já gravado — uma vinheta baixa, uma entrevista captada torta —, o lugar de corrigir é o editor, como em amplificar áudio no Audacity sem distorcer. Aqui estamos falando de sinal ao vivo. Se a sua rádio também vai ao ar em vídeo pelo OBS, o gate e a supressão de ruído de lá estão em como remover ruído do áudio pelo OBS Studio.

O processador que você talvez já tenha — antes de ir à loja

Esta é a parte que muda a conta. Antes de pesquisar preço, abra dois programas que provavelmente já estão instalados.

No encoder: a aba DSP do BUTT

O manual oficial do BUTT descreve, na seção DSP, dois processadores de som: um equalizador de 10 bandas (ganho de −15 dB a +15 dB por banda) e um compressor de faixa dinâmica. As caixas Stream e Rec definem se cada um age na transmissão, na gravação ou nas duas. O manual é direto sobre a importância do compressor: ele reduz a diferença entre as partes altas e baixas do sinal e é usado, nas palavras do próprio documento, por praticamente todas as rádios profissionais.

O procedimento de ajuste recomendado pelo manual cabe em cinco passos:

  1. Toque a fonte mais alta que você vai transmitir (normalmente música) e acerte o nível pelo controle de ganho principal.
  2. Ative o compressor e ajuste o threshold e o ganho. Os tempos de ataque e liberação podem ficar como estão, salvo motivo específico.
  3. Perceba que o nível geral cai — é o efeito da compressão. Use o makeup gain para trazer o sinal de volta ao nível original.
  4. Teste agora com a fonte mais baixa (a sua voz) e verifique se ela subiu em comparação.
  5. Se a fonte baixa ainda estiver fraca, zere o makeup gain e repita a partir do passo 2.

O manual também dá o ponto de partida por tipo de conteúdo: música pede compressão discreta, com threshold mais alto; conteúdo só de fala aceita compressão bem mais forte, o que ajuda a entender o locutor e a reduzir a diferença entre vozes e distâncias de microfone. O acerto é por escuta, e normalmente só precisa ser feito uma vez — o programa guarda as configurações.

Se você ainda não instalou o encoder ou não sabe onde fica essa aba, o passo a passo está em como instalar e configurar o encoder de áudio BUTT. Confira a seção DSP na versão que você tem instalada: o lugar dela na interface pode variar entre versões.

Na mesa virtual: o Voicemeeter

Quem usa mesa virtual tem processamento por canal sem instalar mais nada. A página oficial do Voicemeeter Banana lista compressor e gate por entrada, limitador por canal e limitador integrado no barramento de saída — exatamente a divisão em duas camadas descrita acima. A licença é donationware: o fabricante descreve o programa como livre para uso com todas as funções disponíveis, pagando quem quiser e quando quiser. O tutorial de instalação está em como baixar e instalar a mesa de som virtual Voicemeeter.

Quando um processador dedicado passa a fazer sentido

Existe hora de investir, e ela não é a primeira. Um processador dedicado — em software, como o Stereo Tool, que se descreve como processador de áudio por software com licenças que vão de muito baratas, para uso amador, a caras, para grandes redes, e alguns recursos gratuitos para uso doméstico; ou em hardware — resolve o que o compressor do encoder não dá conta: manter o som consistente entre fontes muito diferentes, 24 horas por dia, com programação automática de madrugada e locução ao vivo de manhã.

O critério é esse, e não a marca: ligue primeiro o que você já tem, ajuste, ouça por uma semana inteira de programação e veja o que ainda incomoda. Vale dizer o óbvio, já que a primeira página de busca por “processador de áudio para web rádio” é quase toda de loja: quem vende equipamento não tem por que perguntar se o seu acervo está em 128 kbps.

Elo 4 — encoder e bitrate: o teto, não a melhoria

O último elo é o mais mal compreendido. O bitrate de saída é o teto do que chega ao ouvinte — não uma melhoria do que entrou. Ele define quanta qualidade você consegue entregar depois que o áudio já está bom, e quanta banda cada ouvinte vai consumir.

A escolha entre AAC e MP3 e a taxa de saída dependem do seu público, da conexão de quem ouve e do plano contratado; isso já está detalhado em streaming de áudio e no tutorial de configuração do SimpleCast para transmissão em AAC. O que importa reter aqui é só a separação: o bitrate do acervo e o bitrate do stream são dois números diferentes, e subir o segundo nunca compensa um problema no primeiro.

Dicas de locução para web rádio: o que nenhum processador conserta

Nenhuma cadeia de áudio salva uma locução sem rumo — e essa era a parte principal da entrevista de 2015. Em janeiro daquele ano, com 15 anos de casa na 94 FM, o locutor Daniel Fernandes resumia assim:

  • A locução segue o segmento da rádio. Na rádio jovem, segundo ele, é “uma locução totalmente para cima, muito dinâmica”, “mais corrida”; na rádio popular, “é um negócio mais tranquilo. Você tá falando pra dona de casa”. Escolher antes qual das duas você quer fazer evita o ar confuso.
  • Rádio sem segmento não comunica. Nas palavras dele, uma emissora que não trabalha com segmento “não consegue passar a sua característica” ao ouvinte. E o ouvinte que troca de estação porque entrou um estilo que ele não gosta, avisava, “não volta tão fácil”.
  • Ouça rádios do segmento que você quer fazer — como referência de ritmo e de forma de falar.
  • Não imite ninguém. A recomendação dele era clara: buscar referência, sim; copiar, não.

Vale o registro: isso é a opinião de um profissional entrevistado em 2015, não uma regra universal de locução. Mas é uma boa régua para uma decisão que nenhum equipamento toma por você.

Checklist de 10 minutos antes de comprar qualquer equipamento

  1. Abra cinco músicas da playlist e confira a taxa de bits de cada uma.
  2. Veja se o acervo está nivelado — se uma faixa entra visivelmente mais alta que a seguinte.
  3. Abra a aba DSP do seu encoder e veja se o compressor está ligado (e para qual sinal: stream, gravação ou ambos).
  4. Ajuste o compressor pelo procedimento do manual: fonte mais alta, threshold, makeup gain, teste com a voz.
  5. Confira se há compressor e gate no canal do microfone, na mesa física ou virtual.
  6. Confira o bitrate do stream e se ele cabe no seu plano.
  7. Ouça o resultado pelo player público da rádio, num fone e num celular — nunca só pelo retorno do estúdio, que não passa pelo encoder.

Se depois desses sete passos ainda faltar alguma coisa, você vai à loja sabendo exatamente o que está comprando — e essa é a diferença entre investir e gastar.

A entrevista completa

Este texto nasceu do vídeo “Dicas para Emissoras de Rádios, WebRadios e Locutores iniciantes”, publicado no canal da JMV Technology em 14 de janeiro de 2015 (9min56s). Gravei no estúdio da Rádio 94 FM de Divinópolis (MG), com o locutor Daniel Fernandes.

Trechos citados da entrevista (transcrição revisada)

“Não adianta você ter um bom equipamento se você tem músicas [com] qualidade ruim.” — Daniel Fernandes, jan/2015.

“Se você vai trabalhar com MP3, não se trabalha com nada abaixo de 320. É a qualidade máxima para o MP3.” — Daniel Fernandes, jan/2015.

“Tem que ter um microfone bom e tem que ter também o processador de voz, que é o que faz a diferença [...]. O microfone seco [...] pode ser o melhor do mundo [...]. É a mesma coisa de você [...] ter uma Ferrari e andar a 40 km/h.” — Daniel Fernandes, jan/2015.

“A locução de uma rádio jovem [...] é uma locução totalmente para cima, muito dinâmica [...]. A locução para a rádio popular já é uma coisa totalmente diferente. É um negócio mais tranquilo. Você tá falando pra dona de casa.” — Daniel Fernandes, jan/2015.

“Uma rádio que não trabalha com segmento, ela não consegue passar a sua característica, a sua imagem, a sua proposta [...] pros ouvintes.” — Daniel Fernandes, jan/2015.

“Não queira imitar ninguém.” — Daniel Fernandes, jan/2015.

Transcrição automática do YouTube, revisada para corrigir erros de reconhecimento de fala e pontuada para leitura. Trechos suprimidos estão marcados com [...]. Os nomes de equipamento citados na conversa não foram reproduzidos porque a legenda automática os deformou e não foi possível confirmá-los.

Ver também

Quer que o trabalho que você fez no áudio chegue inteiro ao ouvinte? Conheça o streaming para web rádios da Sitehosting ou fale com a gente pelo WhatsApp (11) 4063-8923.