O rádio não vai acabar como meio: a Kantar IBOPE Media ainda mede alcance de 79% nas principais regiões metropolitanas. O que acaba são marcas. As emissoras próprias da Transamérica foram vendidas ao Grupo Camargo em 2025 e viraram TMC em outubro. O risco da sua emissora não é a antena desligar: é chegar tarde ao digital.
O episódio do podcast Café & Tech que deu origem a este artigo abre com uma frase forte — “a Transamérica FM acabou” — e a usa como prova de que até rádio grande some. Fomos conferir na fonte. O que aconteceu foi outra coisa, e para quem é dono de emissora a versão verificada é mais útil do que a manchete: não foi uma rádio que apagou a luz; foi uma rede de 49 anos que vendeu as emissoras próprias, trocou de nome e desmobilizou as afiliadas.
Este texto separa o que é fato, com fonte e data de leitura, do que é opinião ou número dito no estúdio. E termina no que interessa: o que uma emissora de cidade média faz primeiro no digital.
O que aconteceu com a Transamérica (e por que “acabou” é a palavra errada)
| Data | O que aconteceu |
|---|---|
| 21/08/1976 | A Transamérica FM entra no ar, com a primeira emissora própria no Recife. |
| 11/07/2024 | A Transamérica de Salvador é vendida a empresários ligados ao Grupo Aratu. |
| 16/08/2024 | A antiga Transamérica Salvador passa a integrar a Antena 1. |
| 31/01/2025 | É assinada a compra das emissoras próprias da rede pelo Grupo Camargo de Comunicação (GC2), dos irmãos João e Neneto Camargo. O negócio vem a público em 03/02/2025 e dependia de aprovação do Cade. |
| 13/10/2025 | Às 7h, a TMC substitui a marca Transamérica nas seis emissoras próprias — São Paulo (100.1), Rio de Janeiro (101.3), Brasília (100.1), Belo Horizonte (88.7), Curitiba (100.3) e Recife (92.7) — e nos canais digitais da antiga rede. |
Duas distinções fazem toda a diferença. Rede vendida não é rádio fechada: as emissoras próprias continuam no ar, agora com jornalismo, esportes e prestação de serviço, em TMC. E marca aposentada não é concessão devolvida: o que saiu do ar foi o nome.
Quem comprou também confere com o episódio. Na fala de um dos apresentadores, “é o mesmo pessoal que é dono da Rádio Disney no Brasil”. Segundo a cobertura do tudoradio.com, o GC2 já operava a Alpha FM, a 89 FM A Rádio Rock e a Rádio Disney FM, todas em São Paulo.
E as afiliadas? Foi aí que a rede “sumiu”
O comprador ficou com as seis emissoras próprias. As afiliadas — as rádios de outras cidades que retransmitiam a Transamérica — seguiram com a marca antiga só de forma temporária e, segundo o tudoradio.com, tinham 60 dias para assumir outros projetos; a de Juiz de Fora, por exemplo, confirmou a ida para a Antena 1.
É o fenômeno que o episódio descreve de memória. Um dos apresentadores lembra que a JMV teve várias afiliadas da Transamérica como clientes, em cidades do Norte, do Sul e do Sudeste, e que elas foram sumindo: “eu achava que tinha perdido o cliente; não, fechou mesmo, mudou de dono ou mudou de rede”. Para a afiliada, a mudança da rede não é notícia de mercado — é a programação e a marca trocando de uma vez.
Por que vendeu? Aqui ninguém sabe — e é honesto dizer
No episódio, a hipótese é que a rede foi vendida porque ia mal. No mesmo minuto, os próprios apresentadores lembram que “estrategicamente você vende uma empresa quando ela está no alto” e que não têm acesso ao balanço. Do outro lado, o tudoradio.com registra que João Camargo afirmou ao Brazil Journal que a operação é superavitária — mas essa é a palavra de quem comprou. Sem balanço público no material que consultamos, este artigo não afirma o motivo da venda. Afirma o efeito, que é o que importa para você: uma rede nacional de quase meio século mudou de dono e de nome, e as emissoras que dependiam dela tiveram de se reposicionar em dois meses.
A conta que assusta de verdade: a base de ouvintes não se repõe sozinha
Comece pelo que está medido. O Inside Audio 2025, da Kantar IBOPE Media, publicado em 28 de agosto de 2025, traz três números que desmontam o “o rádio morreu”:
- 92% da população ouviu rádio, música, streaming ou podcasts nos últimos 30 dias;
- o rádio atinge 79% das principais regiões metropolitanas, com média diária de 3h47 de escuta entre os ouvintes;
- o AM/FM segue como a plataforma mais usada para ouvir as emissoras (70%).
O mesmo estudo mostra para onde o conteúdo das emissoras está indo: YouTube (33%), serviços de áudio sob demanda (16%), aplicativos das próprias emissoras (13%) e redes sociais (12%). Leia o terceiro número com calma: o app da rádio, que é o canal que a emissora controla por inteiro, fica bem atrás de uma plataforma de terceiros. O comunicado do Inside Audio 2025 não publica recorte por faixa etária.
Números sobre jovens citados no episódio — nenhum com fonte primária localizada. Publicamos cada um com a faixa etária que lhe pertence e com a marcação devida:
- “Apenas 18% da população de 18 a 24 anos ouve rádio”, atribuído no episódio à Kantar IBOPE Media (dado citado no podcast — a confirmar).
- “84% dos jovens de 18 a 24 anos têm Spotify”, dito no estúdio, sem indicação de pesquisa (dado citado no podcast — a confirmar).
- “90% dos jovens de 16 a 24 anos consomem Spotify ou outro serviço de biblioteca de áudio”, atribuído no episódio ao GlobalWebIndex e lido ao vivo na tela (dado citado no podcast — a confirmar).
Mesmo sem esses números, o argumento mais forte do episódio fica de pé, porque ele é mecânico, não estatístico. Um dos apresentadores conta que o filho de 16 anos só ouve rádio no carro, com o pai, e que a filha de 14, perguntada se já tinha ouvido rádio no celular ou em casa, respondeu que não — só no carro ou em loja. Quem não cria o hábito aos 16 não passa a ouvir rádio aos 26 por inércia. A audiência de hoje é sólida; o que não está garantido é a reposição dela.
A sugestão prática do episódio é barata e vale mais do que qualquer média nacional: faça a sua própria pesquisa. Pergunte a jovens de 14 a 18 anos da sua cidade se ouvem a sua rádio — e, se ouvem, por onde. A resposta diz em qual tela a sua emissora precisa estar.
Por que a emissora perde faturamento antes de perder audiência
O dinheiro não espera a audiência cair. Na síntese de um dos apresentadores, o radialista “já foi rei na sua cidade” e hoje divide a coroa com TV, Google, influenciador e Spotify. A verba de marketing do pequeno e do médio comércio local continua existindo; o que acabou foi a exclusividade do dial sobre ela.
O caso mais citado no episódio é o da Globo. O Globo Ads é o portal comercial público do grupo, com seções como “Como Anunciar”, “Lista de Preços” e “Territórios Globo” — ou seja, a venda de mídia com recorte regional existe e está aberta a quem quiser anunciar. O episódio menciona um valor de entrada baixo; não conferimos esse valor na lista de preços e, por isso, não o publicamos. O ponto não é o preço: é que o anunciante que antes só tinha a rádio local como opção agora tem alternativas com medição de resultado.
E é aí que a emissora perde a venda. A tese central do episódio é direta: digital se vende por retorno, não por espaço. “Um banner vendido por 15 dias no seu site não é faturamento digital.” O comerciante que põe algumas centenas de reais numa campanha e não vê retorno não anuncia de novo. Para mostrar retorno, a emissora precisa de número real de audiência nos canais digitais — o assunto de estatísticas server-side, o ibope do streaming.
O que fazer primeiro (na ordem, sem revolução)
A parte mais útil do episódio é a ordem de prioridade. “Não tem que revolucionar nada. Você tem que fazer o básico”, diz um dos apresentadores — o arroz com feijão: site que presta, aplicativo que presta, galeria de áudio e de vídeo que presta. O exemplo que ele traz é o de uma emissora grande de capital que, sem app que funcione e sem site decente, perguntava pela novidade tecnológica do painel do carro. Novidade só rende para quem já faz o básico direito.
O pré-requisito: o sinal chegar em qualquer tela, sem travar
Antes da lista, uma distinção que precisa ficar escrita com todas as letras. Transmitir a mesma programação da FM pela internet — o simulcast — é infraestrutura, não estratégia de conteúdo. Sozinho, ele não conquista o ouvinte que nunca ligou um rádio. Mas sem ele nenhum dos passos abaixo funciona: o site não toca, o app não toca, o corte do Instagram não tem para onde mandar o ouvinte. O pré-requisito é um player que abra no navegador do celular sem travar, um sinal que não caia quando a origem falha e distribuição que aguente o pico. É o que descrevemos em soluções para radiodifusores, em streaming para rádio e na redundância de origem.
Depois, na ordem
- Site que abre rápido e é indexável. É por ele que a emissora é encontrada por quem pesquisa onde anunciar. O episódio chama de amador o combo que ainda é comum: estúdio bonito, transmissor novo e um site lento.
- App nas duas lojas oficiais. Um dos apresentadores relata uma rádio grande com aplicativo só para Android e observa que, na experiência dele, quem assina o contrato de anúncio costuma usar iPhone — é uma observação de campo, não uma estatística, mas o custo de ignorá-la é alto. E o app precisa dar motivo para ficar instalado: se só toca a rádio, o ouvinte troca por um agregador. O caminho está em aplicativos iOS, Android e Smart TV para rádios e TVs — e, se o app da sua emissora circula como APK por link, leia o que muda com a verificação de desenvolvedor do Android, porque há prazo correndo.
- Conteúdo que existe por causa da internet. Cortes curtos e verticais do que já acontece no estúdio, com legenda na tela e o locutor de frente para a câmera. É o que transforma a programação linear em algo que o jovem encontra no celular — a mesma lógica do rádio visual descrita em tendências do rádio.
- Estatística de audiência que se possa mostrar ao anunciante. Ouvintes, tempo de escuta, praças e dispositivos, medidos no servidor — é o número que sustenta a venda por retorno do item anterior.
- Participação do ouvinte fora do dial. O episódio cita sorteio dentro do app e notícia local: recursos que alcançam até quem não está ouvindo a rádio naquele momento e que geram audiência mensurável.
Se o orçamento é curto, a ordem importa mais que o tamanho do investimento. E a moral do caso Transamérica vale para qualquer praça: o conceito do Rádio 4.0 descreve para onde o meio vai; a sua emissora só chega lá se fizer o básico antes de a rede, o mercado ou o sucessor decidirem por ela.
Assista ao episódio completo
Este texto nasceu do episódio “Tic-Tac... A Transamérica FM Acabou. Quanto Tempo Até a Sua Rádio Acabar?”, do podcast Café & Tech, publicado pelo canal da JMV Technology em 5 de novembro de 2025 (1h12min04s), com Mário Sérgio, consultor de soluções da JMV, e Josimar Machado, CEO da JMV Technology.
Nota editorial (apuração de 11/09/2026). O episódio acertou o essencial: a marca Transamérica deixou de existir nas emissoras próprias, as afiliadas mudaram de rede e o comprador é o mesmo grupo da Rádio Disney. Três pontos não se sustentam como foram ditos:
- “A Transamérica acabou” e “saiu do ar” — as emissoras próprias seguem no ar, com a marca TMC desde 13/10/2025.
- A hipótese de que a rede foi vendida porque ia mal — não há dado público que a confirme, e o comprador declarou o contrário.
- Os percentuais sobre jovens — nenhum teve a fonte primária localizada (ver a nota na seção sobre a conta geracional).
Também deixamos de fora deste artigo qualquer previsão de prazo para o “fim do rádio”: é opinião dos apresentadores, sem metodologia por trás.
Capítulos e trechos citados do episódio (transcrição revisada)
02:11 — “A partir do momento que a gente tem uma informação da Kantar IBOPE de que apenas 18% da população brasileira entre 18 e 24 anos ouve o rádio, você não pode fechar o olho para isso. […] Não vai ser um problema que vai estourar no seu colo, mas vai ser da sua sucessão, dos seus filhos, da sua família.” — um dos apresentadores. O número está sem fonte primária localizada.
06:40 — “Eu tenho um filho de 16 anos e uma filha de 14. O meu filho de 16 anos só ouve rádio comigo no carro. Nunca parou para colocar um rádio. […] Filha, você já ouviu rádio no seu telefone, na sua casa? — Não, pai.” — um dos apresentadores.
08:36 — “Não tem que revolucionar nada. Você tem que fazer o básico, arroz com feijão.”
11:28 — “Isso afeta não só pequenas e médias rádios; gigantes também são afetados. E o grande exemplo disso é a Transamérica FM, uma das maiores rádios do país. […] A gente teve vários clientes, filiais da Transamérica, e foi sumindo. Eu achava que tinha perdido o cliente; não, fechou mesmo, mudou de dono ou mudou de rede.”
13:23 — “É o mesmo pessoal que é dono da Rádio Disney no Brasil que comprou. Eles têm habilidade com digital. Se tiver, o rádio não vai acabar.”
35:36 — “Nós estamos falando para você fazer o feijão com arroz: aplicativo que presta, site que presta, galeria de áudio que presta, galeria de vídeo que presta. É a base.”
45:12 — “Só tem aplicativo para Android, não tem aplicativo para iOS. […] O cara que contrata, que vai pagar o anúncio, em geral tem iOS.”
47:57 — “Não é hora de se preocupar com nada disso. É hora de fazer o arroz com feijão primeiro. Como é que vai faturar com o digital se você não tem um site que presta, um ecossistema que presta, um aplicativo que presta?”
Transcrição automática do YouTube, revisada para corrigir erros de reconhecimento de fala (o áudio grafa “Kantar IBOPE” como “Cantar Bope” e “JMV” como “GMV”) e pontuada para leitura. A legenda não identifica quem fala; onde não há certeza, o trecho é atribuído a “um dos apresentadores”. As falas estão datadas de 05/11/2025 e devem ser lidas contra a apuração de 11/09/2026 feita neste artigo.
Ver também
- O Rádio 4.0: o rádio conectado — o quadro conceitual do rádio que vive no dial e na internet ao mesmo tempo.
- Tendências do rádio — para onde o meio caminha: podcast, rádio visual, voz e dados.
- Soluções para radiodifusores — simulcast e redundância para quem opera emissora com outorga.
- Aplicativos iOS, Android e Smart TV para rádios e TVs — o passo do app, publicado nas lojas no nome da sua empresa.
- Android vai bloquear APK? — o prazo de quem distribui o app da rádio por link.
- Estatísticas server-side — o número de audiência que se mostra ao anunciante.