Resposta rápida

A emissora já coleta, toda semana, o ativo mais valioso que tem: o cadastro de quem participa das promoções. Organizado por interesse, ele deixa de ser uma lista solta e vira inventário comercial — permite vender campanha casada (no ar e na internet, para o mesmo público), cobrar mais pela segmentação e provar interesse por um evento antes que ele aconteça. E a regra que sustenta tudo: não se vende a lista, vende-se o alcance dela. O que não é registrado não é vendável.

Toda emissora de rádio tem uma tabela comercial, e quase todas as tabelas comerciais do país vendem a mesma coisa: espaço. Trinta segundos às sete da manhã, patrocínio do programa das dez, banner no site por trinta dias. O anunciante compra um lugar e a rádio entrega esse lugar. Funciona, paga a conta há décadas — e tem um teto muito nítido.

Este texto é sobre o que existe acima desse teto, e sobre o fato de que a matéria-prima para chegar lá já está dentro da emissora, sendo jogada fora toda semana.

Nota de contexto: a ideia central deste artigo vem de um vídeo do canal da JMV Technology publicado em janeiro de 2015, apresentado por Josimar Machado. Onze anos depois, o mecanismo continua de pé — mas o vídeo cita ferramentas e um cenário de internet que mudaram muito. Onde isso acontece, está marcado no texto. O vídeo completo, com a transcrição, está no fim da página.

O que a emissora vende hoje — e o teto disso

Spot, patrocínio de programa, testemunhal do locutor, banner no site. Todos esses produtos vendem a mesma unidade: espaço na frente da audiência. O preço é função do horário e do tamanho da audiência bruta — e é aí que está o limite. Sem segmentação, a emissora cobra o mesmo do supermercado, da loja de roupa country e da clínica odontológica, porque entrega a todos exatamente a mesma coisa: todo mundo que estiver ouvindo naquele momento.

A primeira camada de saída desse teto é medir melhor o que já se vende. Isso já foi tratado aqui: o número que convence o anunciante é o de exibições acumuladas no período, e não o pico de ouvintes simultâneos — e, com a medição na origem, esse inventário pode ser separado por plataforma e por dispositivo. Não vamos reexplicar a métrica; se essa parte ainda não está resolvida na sua emissora, comece por ela.

Este artigo trata da camada seguinte, que é de outra natureza. Lá, o que se segmenta são exibições. Aqui, o que se segmenta são pessoas — e pessoas das quais a emissora sabe algo específico, porque elas mesmas contaram.

A promoção já é uma coleta de dados (só não está sendo tratada como uma)

Rádio faz promoção o tempo todo. Sorteio de ingresso para o show que chega na cidade, par de entradas para o jogo, vale-compras do supermercado parceiro, participação no quadro da manhã. É a hora em que o ouvinte, por vontade própria, entrega nome, telefone, cidade e às vezes bem mais do que isso — em troca de uma chance de ganhar algo que ele quer.

Em quase todas as emissoras, esse momento não deixa rastro. A inscrição chega pelo WhatsApp, o locutor lê no ar, alguém anota num papel, o brinde é entregue e acabou. Já escrevemos sobre esse buraco: no WhatsApp, a participação do ouvinte não vira registro — não há como dizer, depois, quantas pessoas entraram, quem eram, nem de onde. Este artigo é a continuação direta daquele. Lá o assunto era organizar o canal e reconhecer o seu limite; aqui o assunto é o que fazer com o registro depois que ele existe.

O avanço é pequeno em esforço e enorme em consequência: a promoção passa a acontecer num formulário — no site da rádio, no app, ou no próprio player. Nele vão os dados de contato, o consentimento explícito com a finalidade escrita, e um campo que quase ninguém preenche porque quase ninguém pensa nele: de qual promoção este cadastro veio.

Esse campo é o artigo inteiro. Sem ele, você tem uma lista. Com ele, você tem uma base de cadastro com significado.

Se a emissora também transmite vídeo, o caminho é ainda mais curto: dá para capturar o cadastro dentro da própria transmissão ao vivo, e os recursos de sorteio e enquete dentro do player são exatamente o “formulário da promoção” descrito acima, já pronto — a pessoa se inscreve sem sair da tela onde está ouvindo.

De lista para base segmentada

Uma lista é um monte de contatos. Uma base segmentada é um monte de contatos que você consegue recortar. A diferença entre as duas não está no tamanho nem na ferramenta: está em quanto você sabe sobre cada linha.

Para uma emissora, três recortes bastam para começar, e os três saem de graça da própria operação:

  • Interesse demonstrado — em que promoção a pessoa entrou. Quem correu atrás do ingresso do show sertanejo gosta de sertanejo. Isso não é suposição: é comportamento.
  • Região — a cidade ou o bairro informado no cadastro. É o recorte que o comércio local mais valoriza e o que as plataformas nacionais de mídia entregam pior.
  • Programa — de qual programa veio a inscrição. Diz o horário e, muitas vezes, o perfil de quem escuta.

Vale insistir num ponto: interesse demonstrado vale mais que dado declarado. Um formulário que pergunta “quais são seus hobbies?” recebe respostas dadas no automático, quando recebe. A promoção não pergunta nada — ela observa. A pessoa gastou tempo se inscrevendo para ganhar aquele ingresso específico, e é isso que fica registrado.

Não confunda com a segmentação do artigo anterior. Em “ouvintes simultâneos ou views”, segmentar significa recortar o inventário de exibição — separar as exibições por dispositivo e sistema para vender a um lojista de capinhas só as que aconteceram em iPhone. Aqui, segmentar significa recortar pessoas por interesse demonstrado. São camadas diferentes que se somam: uma qualifica onde o anúncio aparece, a outra qualifica para quem ele aparece.

A campanha casada: o produto novo da tabela comercial

Chegamos ao ponto em que quase todo mundo erra — inclusive as respostas automáticas que hoje ocupam o topo das buscas sobre monetização de rádio. Quando se sugere à emissora que capte cadastro em landing page de sorteio, a frase que vem colada é sempre a mesma: “você gera leads valiosos para o anunciante”. Entregar os contatos ao anunciante.

Essa é a pior coisa que a emissora pode fazer com o ativo que acabou de construir, por dois motivos independentes, e cada um deles bastaria sozinho.

O primeiro é comercial. A base de cadastro é a única coisa que a sua rádio tem e que a plataforma de mídia concorrente não tem. É o motivo pelo qual o anunciante precisa de você para falar com aquelas pessoas. Entregue a lista uma vez e ele não precisa mais — você vendeu, por um contrato, o ativo que sustentaria os próximos vinte.

O segundo é legal, e não se resolve com uma linha no regulamento do sorteio. Transferir dado pessoal a um terceiro é um tratamento de dados que precisa de base legal própria. Pela LGPD (Lei 13.709/2018), o consentimento tem de se referir a finalidades determinadas — o art. 8º, §4º diz que “as autorizações genéricas para o tratamento de dados pessoais serão nulas” — e o §5º garante ao ouvinte revogar tudo a qualquer momento, por procedimento gratuito e facilitado. Quem coletou responde pelo que fez com o dado. Se você quiser entender o lado técnico do consentimento no site da emissora, temos um texto sobre quando o banner de cookies é obrigatório.

Daí a tese, que é a frase para levar para a reunião comercial de segunda-feira:

Não se vende a lista. Vende-se o alcance dela.

A emissora guarda a base, segmenta por interesse e vende campanha casada: o anúncio toca na programação e a mesma oferta impacta, na internet, exatamente as pessoas que demonstraram aquele interesse — com a rádio operando o envio, em nome da loja, e o relatório fechando os dois lados.

O exemplo que o vídeo de 2015 usa continua sendo o melhor, e é fácil de reconhecer em qualquer cidade: a emissora sorteia ingressos para um show sertanejo e, no mesmo mês, tem como cliente uma loja de roupa country. As pessoas que se inscreveram naquela promoção são, sem margem para dúvida, o público daquela loja. A campanha que a rádio vende não é “trinta inserções”: é trinta inserções mais uma ação online dirigida a esse grupo, assinada pela rádio. Na frase do próprio vídeo, o negócio é “vender arroz para quem quer comprar arroz”.

E aqui vale o cuidado que o vídeo já fazia em 2015, quando ainda não havia LGPD: “muito cuidado para não fazer spam”. O disparo para essa base só acontece com consentimento de quem se cadastrou, com a finalidade informada desde o formulário e com descadastro fácil e visível. Isso não é rodapé jurídico — é o que separa relacionamento de spam, e uma base queimada por disparo excessivo não volta.

O termômetro que ninguém está lendo

Há um subproduto da promoção que a maioria das emissoras nem percebe que está gerando: o número de inscritos é, por si só, um dado vendável.

Pense no que ele significa. Duas semanas antes do evento, a emissora sabe quantas pessoas da região se mexeram para tentar ir. Isso é uma medida de interesse — antes de o evento acontecer, quando ainda dá tempo de fazer algo com ela.

Serve para os dois lados do balcão. Para a emissora, dimensiona a cobertura: um evento com trezentas inscrições e um com três mil não merecem o mesmo espaço na programação. Para o promotor do show ou para o anunciante, é a prova de que o público está lá e é alcançável por aquela rádio — o tipo de informação que nenhuma plataforma de mídia nacional consegue entregar sobre uma cidade de cem mil habitantes.

É também, na prática, o número que falta no mídia kit da maioria das emissoras. A maior parte dos mídia kits de rádio traz alcance e perfil demográfico genérico. Poucos trazem uma linha dizendo quantas pessoas se inscreveram nas últimas cinco promoções da casa, separadas por tema.

Remarketing e afiliados: o que a base ainda destrava

Com a base organizada, duas receitas adicionais ficam ao alcance. Nenhuma das duas substitui o produto principal; as duas dependem dele.

Remarketing: reimpactar quem já veio

A ideia, dita no vídeo de 2015, é simples: quem entrou no site da rádio para se inscrever na promoção do show pop pode ser impactado, semanas depois, pelo anúncio do próximo show pop. É o casamento do que acontece no ar com o que acontece na internet.

Mas essa é a parte do vídeo que mais envelheceu, e ela não pode ser lida como foi gravada. Em 2015 descrevia-se o remarketing como algo que “segue a pessoa em todo lugar”. Hoje isso não descreve mais a realidade: a técnica depende de consentimento de cookie no Brasil, e o rastreamento entre sites de terceiros encolheu bastante com as mudanças de navegadores e sistemas operacionais na última década. Continua existindo e continua útil — dentro do seu próprio site e com as ferramentas de anúncio das plataformas —, mas com alcance menor e regras que não existiam. Trate como um reforço da campanha casada, nunca como promessa de resultado ao anunciante.

Afiliados: recomendar e ganhar por venda

No modelo de afiliados, a emissora recomenda um produto e recebe uma comissão pelas vendas originadas dali. O vídeo ilustra com uma proporção qualquer — ganhar dez reais numa venda de cem —, e é importante dizer que aquilo é ilustração de conversa, não tabela de mercado: a comissão varia enormemente por produto e por programa.

Quando faz sentido: quando a rádio tem um quadro ou coluna com tema próprio — saúde, casa, agro — e o produto recomendado pertence de verdade àquele assunto. A recomendação nasce editorial e a comissão é consequência.

Quando não faz: quando o critério é só a comissão. O custo aparece devagar e não entra em nenhuma planilha — a rádio do interior vive de credibilidade, e é exatamente essa credibilidade que faz o comércio local pagar pelo spot. Gastá-la para ganhar comissão de um produto qualquer é vender o ativo mais caro pelo preço mais barato.

Sobre o que mais envelheceu no vídeo: ele trata banner e AdSense como o eixo da receita na internet e cita o Orkut como exemplo de rede social em que se investiu e que depois sumiu. O exemplo do Orkut segue válido justamente pelo que ele ensina — não construa a sua audiência só em terreno alugado, porque a plataforma pode acabar e a base própria não —, mas é uma referência de 2015, não de hoje. O vídeo também repete a frase de que “o YouTube é o segundo maior buscador do mundo”: é uma afirmação de mercado repetida há mais de uma década, sem fonte primária, e não a reproduzimos aqui como fato.

Por onde começar na segunda-feira

Nada disso exige software novo, equipe nova ou projeto de seis meses. Exige escolher uma promoção e mudar um passo dela.

  1. Escolha UMA promoção — a próxima da grade, seja qual for.
  2. Troque o “manda no WhatsApp” por um formulário no site ou no app da rádio, com nome, contato, cidade e o campo de qual promoção é.
  3. Escreva a finalidade no próprio formulário, em uma frase que uma pessoa comum entenda, e ofereça o descadastro.
  4. Guarde numa planilha por promoção. Não compre ferramenta agora.
  5. Leve o número de inscritos para a próxima reunião comercial — e para o mídia kit, onde hoje ele não está.
  6. Ofereça a campanha casada a um anunciante que já é seu, cujo produto converse com o tema daquela promoção. Um só, para aprender a operar e a medir.

Na sexta-feira seguinte você terá algo que a emissora nunca teve: um grupo de pessoas da sua cidade que você sabe o que querem, e que só a sua rádio consegue alcançar.

Assista ao vídeo completo

Este texto nasceu do vídeo “Dicas de monetização Online para Emissoras de Rádios e Tv's”, publicado pelo canal da JMV Technology em 17 de janeiro de 2015 (11min37s), apresentado por Josimar Machado, CEO da JMV Technology. É um vídeo de janeiro de 2015 — ele cita o Orkut como rede viva e descreve o remarketing como a técnica era em 2015. Leia as ressalvas do texto acima antes de aplicar o que ouvir.

Trechos citados do vídeo (transcrição revisada)

“Imagine se você está lá fazendo um sorteio de ingresso, ou uma promoção, que rádio faz isso o tempo todo. Você vai encontrar um sistema em que você possa capturar o e-mail dessa pessoa, segmentar o e-mail dessa pessoa… principalmente por interesse.” — Josimar Machado, aos 4min17s.

“Vai ter um evento na sua cidade, um show sertanejo, e você tem um cliente que é uma loja country. Você pode enviar um e-mail bem feitinho dessa loja country para esse público.” — aos 5min14s.

“Mas tomando muito cuidado com isso, viu, gente: muito cuidado para não fazer spam.” — aos 5min43s.

“Você tinha um Orkut… investia o dinheiro no Orkut, em mídia e divulgação — e o que aconteceu com o Orkut? O que sobrou, para quem já fazia esse trabalho, é a lista. Você sempre vai ter uma lista.” — aos 6min11s.

“Você vai poder fazer uma mídia offline e casar essa segmentação com uma campanha bem feita, segmentada. A conversão para o seu cliente vai ser muito maior e você vai poder cobrar mais por isso. […] É muito poderoso você vender arroz para quem quer comprar arroz.” — aos 6min39s.

“Uma forma que eu mesmo vejo a possibilidade de fazer e não vejo ninguém fazendo ainda: você fazer um remarketing segmentado. […] Você casa o offline com o remarketing.” — aos 7min34s.

“Outro mercado que você também pode explorar com o seu site, com a sua lista, é o mercado de afiliados.” — aos 8min56s.

Transcrição automática do YouTube, revisada para leitura: a legenda original do vídeo tem erros de reconhecimento de voz (“leite” por lead, “e meses” por e-mails, “Remar que tinha” por remarketing, “Edson” por AdSense, “sedimentar” por segmentar). Os trechos acima estão corrigidos pelo sentido, sem alterar o que foi dito. O vídeo também traz uma conta hipotética de disparo de e-mails, apresentada pelo próprio autor como exemplo imaginado — por isso ela não aparece neste artigo como número de mercado.

Ver também

Quer dar à promoção da sua rádio um lugar que registra — e transformar o cadastro do ouvinte em proposta comercial? Fale com a gente pelo WhatsApp (11) 4063-8923.